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Dalai Lama

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Bondade e Compaixão


ESTA NOITE, gostaria de falar a vocês sobre a importância da bondade e da compaixão. Ao discutir esses temas, não me vejo como budista, Dalai Lama ou tibetano, mas sim como um ser humano e espero que vocês, no auditório, pensem em si mesmos dessa maneira. Não como americanos, ocidentais ou membros de um determinado grupo, pois essas condições são secundárias. Se interagirmos como seres humanos, podemos chegar a esse nível. Caso eu diga "sou monge" ou "sou budista", as afirmações serão, em comparação com a minha natureza de ser humano, temporárias. Ser humano é básico. Uma vez nascido assim, não se poderá mudar até a morte. Outras condições, ser ou não instruído, rico ou pobre, são secundárias.

Hoje, enfrentamos muitos problemas. Alguns são criados essencialmente por nós mesmos, com base em diferenças de ideologia, religião, raça, situação econômica ou outros fatores. Chegou, portanto, o momento de pensarmos em níveis mais profundos. Em nível humano, condição essa que deveremos apreciar e respeitar em todos os que nos cercam. Devemos construir relacionamentos baseados na confiança mútua, na compreensão, no respeito e na solidariedade, independentemente de diferenças culturais, filosóficas ou religiosas.

Todos os seres humanos são iguais. Feitos de carne, ossos e sangue. Todos queremos a felicidade e evitar o sofrimento e temos direito a isso. Em outras palavras, é importante compreender a nossa igualdade. Pertencemos todos a uma família humana. O fato de brigarmos uns com os outros deve-se a razões secundárias, e todas essas discussões são inúteis. Infelizmente, durante muitos séculos, os seres humanos usaram todos os métodos para ferir uns aos outros. Muitas coisas terríveis aconteceram, resultando em mais problemas, mais sofrimento e desconfiança. E, consequentemente, em mais divisões.

O mundo hoje está cada vez menor em vários aspectos, particularmente o econômico. Os países estão mais próximos e interdependentes e, nesse quadro, torna-se necessário, pensar mais em nível humano do que em termos do que nos divide. Assim, falo a vocês apenas como um ser humano e espero, sinceramente, que vocês estejam escutando com o pensamento: "Sou um ser humano e estou ouvindo outro ser humano falar".

Todos queremos a felicidade; nas cidades, no campo, mesmo em lugares remotos, as pessoas trabalham com o objetivo de alcançá-la, entretanto, devemos ter em mente que viver a vida superficialmente não solucionará os problemas maiores.

Há muitas crises e medos à nossa volta. Por meio do grande desenvolvimento da ciência e da tecnologia, atingimos um estado avançado de progresso material, que é necessário. Não podemos, no entanto, comparar o progresso externo com nosso progresso interior. As pessoas queixam-se do declínio da moralidade e do aumento da criminalidade, mas esses problemas não serão resolvidos, se não procurarmos desenvolver nosso interior.

No passado remoto, se houvesse uma guerra, os efeitos seriam geograficamente limitados, porém hoje, em função do progresso, o potencial de destruição ultrapassou o concebível. No ano passado estive em Hiroshima, no Japão. Mesmo tendo informações a respeito da explosão nuclear lá ocorrida, era muito diferente estar no local, ver com meus próprios olhos e encontrar pessoas que realmente sofreram com aqueles acontecimentos. Fiquei profundamente emocionado. Uma arma terrível tinha sido usada. Embora possamos considerar alguém como inimigo, temos de levar em conta que essa pessoa é um ser humano e que tem direito a ser feliz. Olhando para Hiroshima e refletindo a respeito, fiquei ainda mais convencido de que a raiva e o ódio não são meios para solucionar problemas.

A raiva não pode ser superada pela raiva. Quando uma pessoa tiver um comportamento agressivo com você e a sua reação for semelhante, o resultado será desastroso. Ao contrário, se você puder se controlar e tomar atitudes opostas "compaixão, tolerância e paciência", não só se manterá em paz, como a raiva do outro diminuirá gradativamente. Do mesmo modo, problemas mundiais não podem ser solucionados pela raiva ou pelo ódio. Sentimentos como esses devem ser enfrentados com amor, compaixão e pura bondade.

Pensem em todas as terríveis armas que existem, mas que, por si mesmas, não podem iniciar uma guerra. Por trás do gatilho há um dedo, movido pelo pensamento, não por sua própria força. A responsabilidade permanece em nossa mente, de onde se comandam as ações. Portanto, controlar em primeiro lugar a mente é muito importante. Não estou falando de meditação profunda, mas apenas de cultivar menos raiva e mais respeito aos direitos do outro. Ter uma compreensão mais clara da nossa igualdade como seres humanos.

Ninguém quer a raiva, ninguém quer a intranqüilidade, mas por causa da ignorância somos acometidos por sentimentos como esses. A raiva nos faz perder uma das melhores qualidades humanas, o poder de discernimento. Temos um cérebro bem desenvolvido, coisa que outros mamíferos não têm. Esse órgão nos permite julgar o que é certo e o que é errado. Não apenas em termos atuais, mas em projeções para daqui dez, vinte ou mesmo cem anos. Sem nenhum tipo de pré-cognição, podemos utilizar nosso bom senso para determinar o certo e o errado. Imaginar as causas e seus possíveis efeitos. Contudo, se nossa mente estiver ocupada pela raiva, perderemos o poder de discernimento e nos tornaremos mentalmente incompletos. Devemos salvaguardar essa capacidade e, para tanto, temos de criar uma companhia de seguros interna: autodisciplina, autoconsciência e uma clara compreensão das desvantagens da raiva e dos efeitos positivos da bondade. Se refletirmos a respeito dessas questões com freqüência, podemos incorporar a idéia e, então, controlar a mente.

Por exemplo: pode ser que você seja uma pessoa que se irrita facilmente com pequenas coisas. Com desenvolvida compreensão e conscientização, isso pode ser controlado. Se você fica geralmente zangado por dez minutos, tente reduzi-los para oito. Na semana seguinte, reduza para cinco e, no próximo mês, para dois. Depois, passe para zero. É assim que desenvolvemos e treinamos nossa mente. É o que penso e também o que pratico.

É perfeitamente claro que todos necessitam de paz interior, que só pode ser alcançada por meio da bondade, do amor e da compaixão. O resultado é uma família em paz, felicidade entre pais e filhos, menos brigas entre casais. Em uma nação, essa atitude pode criar unidade, harmonia e cooperação com saudável motivação. Em nível internacional, precisamos de confiança e respeito mútuos, discussões francas e amistosas, com motivações sinceras e um esforço conjunto no sentido de resolver problemas. Tudo isso é possível.

Precisamos, porém, mudar interiormente. Nossos líderes têm feito o melhor que podem para resolver nossos problemas, mas, quando um é resolvido, surge outro. Tenta-se solucionar este, surge mais um em outro lugar. Chegou o momento então de tentar uma abordagem diferente.

É certamente difícil realizar um movimento mundial pela paz de espírito, mas é a única alternativa. Caso houvesse outro método mais fácil e prático, seria melhor, porém não há. Se com armas pudéssemos chegar à paz duradoura, muito bem. Transformaríamos todas as fábricas em produtoras de armamentos. Gastaríamos todos os dólares necessários, se conseguíssemos a definitiva paz, mas tal é impossível.

As armas não permanecem empilhadas. Uma vez desenvolvidas, alguém irá usá-las. O resultado é a morte de criaturas inocentes. Portanto, a única maneira de atingirmos uma paz mundial duradoura é por meio da transformação interior. E, mesmo que essa transformação não ocorra durante esta vida, a tentativa terá sido válida. Outros seres humanos virão; a próxima geração e as seguintes. E o progresso pode continuar. Sinto que, apesar das dificuldades práticas, e, mesmo correndo o risco de que tal visão seja considerada pouco realista, vale a pena o esforço. Assim, aonde quer que eu vá, expresso essas idéias e sinto-me muito motivado porque mais pessoas têm sido receptivas a elas.

Cada um de nós é responsável por toda a humanidade. Chegou a hora de pensarmos nas outras pessoas como verdadeiros irmãos e irmãs e nos preocuparmos com seu bem-estar. Mesmo que você não possa se sacrificar inteiramente, não deverá esquecer-se das dificuldades dos outros. Temos de pensar mais sobre o futuro em benefício de toda a humanidade. Se você tentar dominar seus sentimentos egoístas e desenvolver mais bondade e compaixão, em última análise, você é quem irá sair beneficiado. É o que chamo de egoísmo sábio. Pessoas egoístas tolas só pensam em si mesmas, e o resultado é negativo. Egoístas sábios pensam nos outros, ajudam da melhor forma e também colhem os benefícios. Essa é minha simples religião. Não há necessidade de templos ou de filosofias complicadas. Nosso próprio cérebro, nosso coração são nossos templos. A filosofia é a bondade.

Fonte: http://www.dharmanet.com.br/dalai/

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Yauch entrevista S.S. O Dalai Lama


ADAM: Poderia falar sobre a responsabilidade universal?
DALAI LAMA: Eu acredito que o perdão, a bondade e a compaixão são qualidades importantes porque sevem como um fundamento para a calma e estabilidade mentais, e o futuro da humanidade depende disso. É meu dever, como cidadão deste planeta, contribuir o melhor que eu puder para a o bem-estar universal. A tecnologia está transformando o mundo em uma comunidade global e todos nós estamos relacionados uns com os outros. Muitas das questões atuais, tais como a destruição do meio ambiente e os sistemas econômicos em vigor, transcendem as fronteiras e portanto são questões globais. Então, todos precisam compartilhar de um senso de responsabilidade universal. Sempre achei que as pessoas são as mesmas, em todos os lugares. As diferenças de raça, cultura e religião não são importantes. Já que somos todos os mesmos, precisamos ter um senso de responsabilidade pelo bem-estar de cada um.

ADAM: E como poderíamos ver o entendimento budista de interdependência nos termos de direitos humanos?
DALAI LAMA: A violação dos direitos humanos hoje é um sintoma com causas subjacentes; então, para reduzir ou remover completamente as violações dos direitos humanos, precisamos lidar primeiro com suas causas. Poderiam ser motivos políticos ou econômicos. Em alguns casos, as violações de direitos humanos podem ser baseadas em vingança pessoas ou por parte dos governantes. Então, poderiam haver muitos motivos subjacentes para as violações dos direitos humanos.

ADAM: Poderia falar um pouco sobre a situação do Tibet?
DALAI LAMA: Sim, mas primeiro devemos achar alguma base comum para o nosso diálogo e nossas negociações. Estou pronto para negociar, em qualquer lugar, a qualquer hora, sem pré-condições. A coisa mais importante, em qualquer lugar ou hora, é um ambiente livre para trocar diferentes idéias. A independência pertence legitimamente aos tibetanos. Desde que os chineses ocuparam o Tibet, e apesar de algumas mudanças positivas, as pessoas têm sofrido tremendamente, imensamente. Como resultado, a maioria do povo tibetano, incluindo os jovens comunistas tibetanos, não querem viver sob a dominação chinesa. Mas também não é realista pensar na independência completa. Então, eu estou procurando um Caminho Intermediário.

ADAM: Nós não estamos esperando muito para lidar com esta situação?
DALAI LAMA: No conflito bósnio, senti que a comunidade internacional estava atrasada. Estes eventos infelizes tinham muitas causas e condições que tomaram anos para se desenvolver. Se tivéssemos tomado conhecimento na época em que estas causas e condições estavam se desenvolvendo, talvez teria sido muito mais fácil lidar com elas. Exceto se nós fizermos uma investigação no nível causal, exceto se nós tivermos uma atenção específica, muitas vezes não é muito visível o que está errado. Não é sempre óbvio que as causas estão construindo uma crise potencial; depois percebemos que deveríamos ter tido maior atenção com o que estava acontecendo.

ADAM: Eu ouvi você dizer, em entrevistas anteriores, que as autoridades chinesas, apesar de terem causado tanto destruição no seu país, têm sido um grande mestre para você. Muitas vezes, no Ocidente, é realmente mais fácil ver seus inimigos como inimigos e seus amigos como amigos.
DALAI LAMA: Os conceitos de "amigo" e "inimigo" realmente dependem de muitas condições. A verdade é que o status de nossos amigos e inimigos pode mudar em um ano, uma década ou muitas décadas. Nossos inimigos não são necessariamente inimigos permanentes, nem nossos amigos são amigos permanentes. Acho que nossas percepções de "amigo" e "inimigo" dependem de nossas atitudes mentais. Na realidade, inimigos e amigos não possuem um status permanente. Por causa disso, você pode se encorajar em práticas de troca de idéias, que podem permitir que você faça a mudança dentro de si.

ADAM: Os não-budistas podem praticar essa troca de idéias?
DALAI LAMA: Os cristãos acreditam que todos os seres foram criados por Deus; então, mesmo no senso cristão, todos os seres são irmãos e irmãs. Nessa base, você pode praticar a troca de idéias. Mesmo os não-cristãos podem praticar a troca de idéias com seus amigos. Mas não sei sobre estender isso aos seus inimigos (risos). Talvez você deva esperar até que o inimigo lhe dê um presente (mais risos).

ADAM: Foi difícil ser reconhecido como o Dalai Lama quando era jovem?
DALAI LAMA: Como um jovem garoto, às vezes eu pensava que seria mais fácil ser uma pessoa comum do que ser o Dalai Lama. Geralmente, eu tinha esses sentimentos sozinho em minha sala no Palácio Potala, que era muitas vezes frio e desconfortável. Eu queria ver as crianças voltando para casa, após cuidarem dos animais, e ouvi-las cantando e rindo, enquanto eu tinha que ficar sentado em minha sala solitária e recitar orações difíceis. Mas quando cresci, eu entendi o objetivo da vida, que para mim é viver pelo benefício da humanidade e dos seres suscetíveis. Os humanos têm inteligência e determinação, e podemos usar estas qualidades para encarar nossos problemas. Também é bom que existam os desafios, pois deste modo podemos exercer estas qualidades. Deste ponto de vista, saber que somos capazes de solucionar nossos próprios problemas pode nos dar força interior.

ADAM: Como nós, enquanto indivíduos, podemos contribuir para melhorar o mundo?
DALAI LAMA: Eu sinto que, como indivíduos, precisamos desenvolver a compaixão e um senso de fraternidade. Por compaixão, não entendo simplesmente como sentir complacência. A compaixão propriamente dita significa um sentimento de proximidade com os outros e, junto com isso, um senso de responsabilidade. Acredito que, ao nascer, todos os seres humanos estão livres da ideologia mas não da afeição. Apesar do ódio e dos sentimentos negativos serem parte da natureza humana, o amor e a compaixão dentro de nós são ainda maiores.

Fonte: http://www.dharmanet.com.br/dalai/

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 Pensamentos

Minha mensagem é a prática do amor, da compaixão e da bondade. Estas qualidades são muito úteis para vivermos nosso cotidiano mais harmoniosamente, e também muito importantes para a sociedade humana como um todo.


Uma profunda compaixão é a raiz de todas as formas de adoração.


Onde quer que eu vá, sempre aconselho as pessoas a serem altruístas e bondosas. Tento concentrar toda a minha energia e força espiritual na disseminação da bondade. É o que há de mais essencial.


A bondade é o que realmente importa. A bondade, o amor e a compaixão combinados são sentimentos que levam à essência da fraternidade. São os alicerces da paz interior.


Com sentimentos de ódio e rancor, é muito difícil alcançar a paz interior. Neste sentido, as religiões e crenças são convergentes. Em todas as grandes religiões do mundo, a ênfase é no espírito de fraternidade.


São os inimigos que verdadeiramente nos ensinam a vivenciar sentimentos de compaixão e tolerância. As guerras surgem porque não há compreensão do lado humano das pessoas. Ao invés de conferências e encontros políticos, por que não convocar as famílias a fazerem um piquenique para que se conheçam mutuamente, enquanto suas crianças brincam juntas?


Nos tempos antigos, quando havia uma guerra, o embate era corpo a corpo. O vitorioso entrava em contato direto com o sangue e o sofrimento do inimigo durante a batalha. Hoje, as guerras adquiriram uma proporção muito mais horrenda. Um homem, sentado em uma sala, aperta um botão e mata milhões de pessoas instantaneamente, sem ao menos ver o sofrimento humano que infligiu. A mecanização da guerra e a automação do conflitos humanos são, cada vez mais, uma ameaça à paz mundial.


Sempre acreditei que a determinação humana e a verdade prevaleceriam sobre a violência e a opressão. No mundo de hoje, em todos os lugares, há mudanças importantes ocorrendo, que poderão afetar profundamente nosso futuro e o futuro da humanidade, bem como nosso planeta. Decisões corajosas por parte de vários líderes mundiais propiciam a resolução pacífica de conflitos. A esperança de haver paz, preservação do meio ambiente e uma abordagem mais humana aos problemas do mundo parece estar mais presente que nunca.


Ninguém pode prever o que acontecerá em algumas décadas ou séculos, por exemplo, qual o impacto que o desflorestamento terá sobre o clima, o solo, as chuvas. Temos muitos problemas porque as pessoas estão centradas em seus próprios interesses, em ganhar dinheiro e não estão pensando no bem-estar da comunidade como um todo. Não estão pensando na Terra a longo prazo, e nos efeitos ambientais adversos sobre o homem. Se nós, da atual geração, não refletirmos sobre estas questões agora, as gerações futuras não terão como lidar com elas.


Muitos de nós juntam-se sob o mesmo sol resplandecente, falando línguas diversas, vestindo indumentárias diferentes e até mesmo possuindo crenças distintas. Contudo, nós todos somos idênticos como seres humanos e individualmente únicos. Desejamos todos, indistintamente, a felicidade e não o sofrimento.


Mesmo que não possamos resolver certos problemas, não devemos nos frustrar. Como humanos devemos enfrentar a morte, a velhice e doenças, que, tal qual um furacão, são fenômenos naturais que fogem ao nosso controle. Devemos enfrentá-los, não podemos evitá-los. São sofrimentos que já bastam em nossa vida. Por que criarmos mais problemas por apego à nossa ideologia ou porque pensamos de maneira diferente? É inútil e triste! Milhões de pessoas sofrem com esse tipo de problema. É um verdadeiro desperdício, visto que podemos evitar o sofrimento adotando uma atitude diferente e reconhecendo a humanidade à qual as ideologias deveriam servir.


Rancor, ódio, ciúme: não é possível encontrar a paz com eles. Podemos resolver muitos de nossos problemas por meio da compaixão e do amor. Só assim nos desarmaremos e encontraremos a verdadeira felicidade. Uma das maiores virtudes é a compaixão. A compaixão não pode ser comprada numa loja de departamentos ou fabricada por máquinas. Ela advém do crescimento interior. Sem paz de espírito, é impossível haver paz no mundo.


Na nossa vida, cultivar a tolerância é muito importante. Com tolerância, pode-se facilmente superar as dificuldades. Caso você tenha pouca ou nenhuma tolerância, ficará irritado com as mínimas coisas. Em situações difíceis, terá reações extremadas. Em minha vida, já refleti muito a respeito desta questão e sinto que a tolerância é algo que deve ser praticado no mundo inteiro, no seio da sociedade humana. Mas, quem nos ensina tolerância? Pode ser que seus filhos o ensinem a cultivar a paciência, mas é seu inimigo quem irá ensinar-lhe a prática da tolerância. O inimigo é seu mestre. Mostre-lhe respeito, ao invés de ódio. Dessa forma, a verdadeira compaixão irá brotar de seu interior e essa compaixão é a base de tudo aquilo que você é e acredita.


Bens e compensações materiais são absolutamente necessários à sociedade humana, a um país, a uma nação. Ao mesmo tempo, o progresso material e a prosperidade somente não podem levar à paz interior. A paz interior vem de dentro. Portanto, nossa atitude perante a vida, perante os outros e principalmente em relação às nossas dificuldades conta muito. Quando duas pessoas enfrentam o mesmo problema, atitudes mentais distintas fazem com que o problema seja de mais fácil resolução para uma pessoa do que para outra. Desta forma, o que realmente nos diferencia é a perspectiva interna de cada um.


Se colocarmos os níveis de consciência mais sutis a nosso serviço, estaremos expandindo nossa mente. Assim sendo, as virtudes originárias da mente podem se expandir ilimitadamente.


A compaixão e o amor são as virtudes mais preciosas da vida. Por serem muito simples, são difíceis de serem colocados em prática. A compaixão só poderá ser plenamente cultivada à medida que se reconhece que cada ser humano é parte da humanidade e pertencente à família humana, independente de religião, raça, cultura, cor e ideologia. A verdade é que não há diferença alguma entre os seres humanos.


Sem amor, a sociedade humana encontra-se em situação difícil. Sem amor, iremos enfrentar problemas terríveis no futuro. O amor é o centro da vida.


Se tiver amor e compaixão por todos os seres sencientes, em especial por seus inimigos, este é o verdadeiro amor e a verdadeira compaixão. O amor e compaixão, nutridos por seus amigos, esposa e filhos, não são verdadeiros em sua essência. São apego, e esse tipo de amor não pode ser infinito.


Insisto em afirmar que as principais religiões do mundo — budismo, cristianismo, judaÍsmo, confucionismo, hinduismo, islamismo, jainismo, sikhismo, taoismo, zoroastrismo — possuem os mesmos ideais de amor, o mesmo objetivo de beneficiar a humanidade por meio da prática espiritual, e a mesma determinação de aprimorar seus praticantes como seres humanos. Todas as religiões pregam preceitos morais para o aperfeiçoamento da mente, do corpo e da fala. Todas nos ensinam a não mentir, roubar ou tirar a vida de outras pessoas. A essência de todos os preceitos morais preconizados pelos grandes mestres da humanidade é o não-egoísmo. Esses mestres tinham como objetivo remir os praticantes de ações negativas, frutos da ignorância, e conduzi-los ao caminho do bem.


Se percebemos a humanidade como sendo una e singular, iremos constatar que as diferenças são secundárias. Com atitude de respeito e preocupação pelo próximo, experimentamos a felicidade. Só assim criamos a verdadeira harmonia e fraternidade. À sua maneira, tente cultivar a paciência. Modifique sua atitude. As mudanças vêm com a prática. A mente humana tem esse potencial. Aprenda a treiná-la.


A nossa sombra interior, a que chamamos de ignorância, é a raiz de todo o sofrimento. Quanto mais luz houver, menos a sombra se manifestará. A luz é o único caminho para a salvação, para alcançar o nirvana.


Deve haver um equilíbrio entre o progresso espiritual e o material. Atinge-se esse equilíbrio por meio de princípios calcados no amor e na compaixão. O amor e a compaixão são a essência de todas as religiões, que têm muito a aprender entre si. O objetivo primordial de todas as religiões é criar seres humanos mais tolerantes, mais compassivos e menos egoístas.


Os seres humanos são dotados de uma natureza tal que não deveriam apenas possuir bens materiais, mas deveriam antes possuir sustento espiritual. Sem o sustento espiritual, torna-se difícil adquirir e manter a paz de espírito.


Para cultivar a sabedoria, é preciso força interior. Sem crescimento interno, é difícil conquistar a autoconfiança e a coragem necessárias. Sem elas, nossa vida se complica. O impossível torna-se possível com a força de vontade.

Fonte: http://www.dharmanet.com.br/dalai/

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Dimensões da Espiritualidade

IRMÃOS E IRMÃS, gostaria de falar sobre valores espirituais definindo dois níveis de espiritualidade. Como seres humanos, nosso objetivo básico é ter uma vida feliz; todos queremos ser felizes. É natural, para nós, buscar a felicidade. Esse é nosso objetivo de vida. A razão é completamente clara: quando perdemos a esperança, o resultado é que nos tornamos deprimidos e talvez até suicidas. Portanto, nossa existência é fortemente enraizada na esperança. Embora não haja garantia de que o futuro chegará, é porque temos esperança que somos capazes de continuar vivendo. Podemos dizer que o propósito de nossa vida, nosso objetivo de vida, é a felicidade.


Seres humanos não são produzidos por máquinas. Somos mais do que apenas matéria; temos sentimento e experiência. Por essa razão, somente conforto material não é suficiente. Necessitamos algo mais profundo, o que usualmente chamo de afeição humana, ou compaixão. Com afeição humana, ou compaixão, todas as vantagens materiais que temos à nossa disposição podem ser muito construtivas e produzir bons resultados. Contudo, sem afeição humana, somente vantagens materiais não nos proporcionarão satisfação, nem produzirão qualquer medida de paz mental ou felicidade. De fato, vantagens materiais sem afeição humana podem até mesmo criar problemas adicionais. Portanto, afeição humana, ou compaixão, é a chave para a felicidade humana.

O primeiro nível da espiritualidade, para os seres humanos de todos os lugares, é a fé em uma das muitas religiões do mundo. Penso que há um importante papel para cada uma das principais religiões mundiais, mas para que elas façam uma contribuição efetiva em benefício da humanidade do lado religioso, há dois fatores importantes a serem considerados. O primeiro é que praticantes individuais das várias religiões — isto é, nós mesmos — devem praticar sinceramente. Ensinamentos religiosos devem ser uma parte integral de nossas vidas; eles não deveriam estar separados de nossas vidas. Algumas vezes, vamos a uma igreja ou um templo e rezamos uma prece, ou geramos algum tipo de sentimento espiritual e, quando saímos, nada daquele sentimento religioso permanece. Essa não é a forma adequada de praticar. A mensagem religiosa deve estar conosco onde quer que estejamos. Os ensinamentos da nossa religião devem estar presentes em nossas vidas de forma que, quando realmente precisamos ou pedimos bençãos ou força interior, mesmo nessas horas esses ensinamentos estarão lá; eles estarão lá quando passarmos por dificuldades porque estão constantemente presentes. Somente quando a religião torna-se uma parte integral de nossas vidas é que ela pode ser realmente efetiva.

Também precisamos experienciar mais profundamente os significados e valores espirituais de nossa própria tradição religiosa — precisamos conhecer esses ensinamentos não só a nível intelectual, mas também, de forma cada vez mais profunda, através de nossa própria experiência. Algumas vezes entendemos diferentes idéias religiosas num nível muito superficial ou intelectual. Sem um sentimento profundo, a eficácia da religião torna-se limitada. Portanto, devemos praticar sinceramente, e a religião deve tornar-se parte de nossas vidas.

O segundo fator refere-se mais à interação entre as várias religiões mundiais. Hoje, por causa da crescente mudança tecnológica e a natureza da economia mundial, estamos muito mais dependentes uns dos outros do que antes. Diferentes países e continentes tornaram-se mais intimamente associados uns com os outros. Na realidade, a sobrevivência de uma região do mundo depende da de outras. Portanto, o mundo tornou-se mais próximo, muito mais interdependente. Como conseqüência, há mais interação humana. Sob tais circunstâncias, a idéia de pluralismo entre as religiões mundiais é muito importante. Em tempos passados, quando as comunidades viviam separadas uma das outras e as religiões surgiam num relativo isolamento, a idéia que havia só uma religião era muito útil. Mas agora a situação mudou, e as circunstâncias são inteiramente diferentes. Agora é crucial aceitar o fato de que existem diferentes religiões, e a fim de desenvolver verdadeiro respeito mútuo entre elas é essencial aproximar o contato entre as várias religiões. Esse é o segundo fator que possibilitará as religiões mundiais serem mais eficazes em beneficiar a humanidade.

Quando estava no Tibete, eu não tinha contato com pessoas de diferentes crenças religiosas. Assim, minha atitude em relação às outras religiões não era muito positiva. Mas, quando tive a oportunidade de encontrar pessoas de diferentes crenças e aprender com essa experiência e o contato pessoal, minha atitude para com as outras religiões mudou. Compreendi como são úteis para a humanidade e o potencial contributivo de cada uma para um mundo melhor. Há séculos, as religiões vêm dando contribuições maravilhosas para o aprimoramento dos seres humanos, e ainda hoje há um grande número de seguidores do cristianismo, islamismo, judaísmo, budismo, hinduísmo e assim por diante. Milhões de pessoas estão se beneficiando de todas essas religiões.

Para dar um exemplo do valor do encontro de diferentes crenças, meus encontros com o falecido Thomas Merton fizeram-me perceber que bonita, maravilhosa pessoa ele era. Noutra ocasião, encontrei-me com um monge católico que viveu vários anos como eremita numa montanha bem atrás do mosteiro de Montserrat, na Espanha. Quando visitei o mosteiro, ele desceu de sua ermida especialmente para falar comigo. O fato de o inglês dele estar pior do que o meu me deu mais coragem de falar com ele! Ficamos cara a cara e perguntei, "Nesses poucos anos, o que você estava fazendo naquela montanha?" Ele olhou-me e respondeu, "Meditação na compaixão, no amor". Quando ele disse estas poucas palavras, entendi a mensagem através dos seus olhos. Realmente desenvolvi verdadeira admiração por ele e por outros como ele. Tais experiências ajudaram a confirmar na minha mente que todas as religiões do mundo têm o potencial para produzir boas pessoas, a despeito das suas diferenças de filosofia e doutrina. Cada tradição religiosa tem sua própria maravilhosa mensagem a transmitir.

Do ponto de vista do budismo, por exemplo, o conceito de um criador é ilógico. É difícil para os budistas entenderem esse conceito por causa do modo que eles analisam a causalidade. Contudo, este não é o lugar para discutir questões filosóficas. O ponto importante aqui é que para as pessoas que seguem esses ensinamentos nos quais a crença básica está num criador, esta abordagem é eficaz. De acordo com essas tradições, o ser humano individual é criado por Deus. Além disso, como recentemente aprendi de um dos meus amigos cristãos, eles não aceitam a teoria do renascimento, e assim, não aceitam vidas passadas ou futuras. Acreditam somente nesta vida. Contudo, eles mantêm que esta vida é criada por Deus, pelo criador, e esta idéia desenvolve neles um sentimento de intimidade com Deus. Seu ensinamento mais importante é que, como estamos aqui por desejo de Deus, nosso futuro depende do criador, e porque o criador é considerado supremo e sagrado, devemos amar a Deus, o criador.

O que segue-se a isso é o ensinamento que deveríamos amar nossos semelhantes — esta é a mensagem principal aqui. O raciocínio é que se amamos a Deus, devemos amar nossos semelhantes porque eles, como nós, foram criados por Deus. O futuro deles, como o nosso, depende do criador, portanto, sua situação é igual a nossa. Logo, a crença das pessoas que dizem "Ame a Deus" mas não mostram amor verdadeiro para seus semelhantes é questionável. A pessoa que acredita em Deus e no amor a Deus, deve demonstrar a sinceridade de seu amor a Deus através do amor dirigido aos semelhantes. Essa abordagem é muito poderosa, não é?

Assim, se examinarmos cada religião por vários ângulos e da mesma maneira — não apenas da nossa posição filosófica mas de vários pontos de vista — não pode haver dúvida de que todas as grandes religiões têm o potencial para melhorar os seres humanos. Isto é óbvio. Através de um contato próximo com pessoas de outras fés, é possível desenvolver uma atitude aberta e de respeito mútuo em relação a outras religiões. Proximidade com diferentes religiões ajuda-me a aprender novas idéias, novas práticas, e novos métodos ou técnicas que posso incorporar à minha própria prática. Da mesma forma, alguns de meus irmãos e irmãs cristãos adotaram certos métodos budistas, como a prática da mente unifocada e as técnicas de desenvolvimento da tolerância, da compaixão e do amor. O benefício é enorme quando praticantes de diferentes religiões se unem para esse tipo de intercâmbio. Além de desenvolverem a harmonia entre si, ganham outras benesses.

Políticos e líderes de nações falam com freqüência em "coexistência" e "ação conjunta". Por que não nós, religiosos, também? Acho que é chegada a hora. Em Assis, em 1987, por exemplo, líderes e representantes de várias religiões mundiais se encontraram para orar juntos, embora eu não saiba ao certo se orar é a palavra exata para descrever com acuidade a prática de todas aquelas religiões. Em todo caso, o que importa é que os representantes de várias religiões se reuniram e, conforme suas próprias crenças, rezaram. Isso já está acontecendo e é, creio eu, muito positivo. No entanto, ainda precisamos fazer mais esforços para aumentar a harmonia e a proximidade entre as religiões mundiais, pois sem um tal esforço continuaremos a vivenciar todos esses problemas que dividem a humanidade. Se a religião fosse o único remédio para reduzir o conflito humano, mas se este mesmo remédio se tornasse outra forma de conflito, seria um desastre. Hoje, como no passado, ocorrem conflitos em nome da religião por causa de diferenças religiosas, e acho isso muito triste. Mas, como disse antes, se pensarmos aberta e profundamente compreenderemos que a situação atual é inteiramente diferente do passado. Não estamos mais isolados, mas somos interdependentes. Hoje, portanto, é muito importante entender que um relacionamento íntimo entre as várias religiões é essencial, para que diferentes grupos religiosos possam trabalhar juntos e realizar um esforço comum para o benefício da humanidade. Assim, sinceridade e fé na prática religiosa por um lado, e tolerância e cooperação religiosa por outro, formam este primeiro nível do valor da prática espiritual para a humanidade.

O segundo nível da espiritualidade — a compaixão como religião universal — é mais importante que o primeiro porque, não importa quão maravilhosa uma religião possa ser, ainda assim ela é aceita somente por um número limitado de pessoas. A maioria dos cinco ou seis bilhões de seres humanos em nosso planeta provavelmente não pratica religião alguma. De acordo com o seu ambiente familiar, eles poderiam se identificar como pertencentes a um ou outro grupo religioso — "eu sou hindu", "eu sou budista", "eu sou cristão" —, mas realmente a maioria desses indivíduos não é necessariamente praticante de nenhuma crença religiosa. Isto está correto: seguir uma religião ou não é um direito da pessoa como indivíduo. Todos os grandes mestres, como Buda, Mahavira, Jesus Cristo e Maomé falharam em tornar toda a população humana voltada para a espiritualidade. O fato é que ninguém pode fazer iss Se esses não-crentes são chamados de ateus não importa. De fato, para alguns estudiosos ocidentais os budistas também são ateístas, pois não aceitam um criador. Por isso, às vezes, ao descrever estes não-crentes, adiciono a palavra "extremo" e os chamo de não-crentes extremos. Eles não apenas são não-crentes mas também são extremos, presos ao ponto-de-vista de que a espiritualidade não tem valor. Contudo, devemos lembrar que essas pessoas também são uma parte da humanidade e também têm, como todos os seres humanos, o desejo de viver uma vida pacífica e feliz. Este é o ponto importante.

Acredito que não há problemas em permanecer não-crente, mas enquanto você fizer parte da humanidade, enquanto você for um ser humano, você precisa de afeição humana, compaixão humana. Este é realmente o ensinamento essencial de todas as tradições religiosas: o ponto crucial é a compaixão ou afeição humana. Sem afeição humana, mesmo crenças religiosas podem tornar-se destrutivas. Assim, a essência, mesmo na religião, é um bom coração. Considero que a afeição humana, ou compaixão, é a religião universal. Crente ou não-crente, todos necessitam de afeição humana e compaixão, porque compaixão nos dá força interior, esperança e paz mental. Assim, ela é indispensável para todos.

Examinemos, por exemplo, a utilidade de um bom coração na vida cotidiana. Se estamos de bom humor quando nos levantamos de manhã, com um sentimento caloroso no coração, automaticamente está aberta a nossa porta interior para aquele dia. Mesmo se uma pessoa pouco amistosa aparece, não nos perturbamos, e podemos até dizer a ela alguma coisa simpática. Mas num dia de humor menos positivo, quando nos sentimos irritados, nossa porta interior se fecha automaticamente. O resultado é que, mesmo se encontramos nosso melhor amigo, ficamos pouco à vontade e tensos. Tais situações mostram a diferença que nossa atitude interior faz nas experiências do dia-a-dia. Precisamos, pois, a fim de criar uma atmosfera agradável em nós mesmos, nas nossas famílias e nossas comunidades, compreender que a fonte desse bem-estar está dentro do indivíduo, dentro de cada um de nós — um bom coração, compaixão humana, amor.

Uma vez criada uma atmosfera positiva e amistosa, o medo e a insegurança automaticamente diminuem. Assim, podemos facilmente fazer mais amigos e criar mais sorrisos. Afinal de contas, somos animais sociais. Sem amizade humana, sem o sorriso humano, nossa vida torna-se miserável. O sentimento de solidão fica insuportável. É a lei natural, isto é, pela lei natural dependemos dos outros para viver. Se, sob certas circunstâncias, por algo estar errado dentro de nós, nossa atitude para com nossos semelhantes, de quem dependemos, se tornar hostil, como poderemos esperar paz de espírito e uma vida feliz? De acordo com a natureza humana básica, ou lei natural, a afeição — compaixão — é a chave da felicidade. Segundo a medicina contemporânea, um estado mental positivo, ou paz mental, também é benéfico para a saúde física. Logo, mesmo do ponto de vista de nossa saúde, paz e calma mental são cada vez mais importantes. Isso mostra que o próprio corpo físico aprecia e responde à afeição humana, à humana paz de espírito.

Se olharmos para a natureza humana básica, veremos que nossa natureza é mais dócil do que agressiva. Se examinarmos vários animais, notaremos que aqueles de natureza mais pacífica têm uma estrutura corporal correspondente, enquanto os predadores têm uma estrutura corporal desenvolvida de acordo com a natureza deles. Compare um tigre com um veado. Há uma grande diferença de estrutura física entre eles. Quando comparamos o nosso próprio corpo com os deles, vemos que somos mais parecidos com os veados e coelhos do que com os tigres. Até os nossos dentes são mais parecidos com os deles, não são? Bem diferentes dos do tigre. Nossas unhas são outro bom exemplo — eu não sou capaz de pegar nem um rato, só com as minhas unhas humanas. Claro, a inteligência humana nos habilita a criar ferramentas e métodos sem os quais seria difícil fazer muito do que fazemos. Como vêem, devido ao nosso estado físico, pertencemos à categoria dos animais dóceis. Acho que é nossa natureza humana fundamental que se mostra em nossa estrutura física básica.

Diante da situação global atual, a cooperação é essencial, especialmente em campos como economia e educação. O conceito de que diferenças são importantes está agora mais ou menos ultrapassado, como demonstra o movimento por uma Europa Ocidental unificada. Acho que esse movimento é verdadeiramente maravilhoso e chega em boa hora. Ainda assim, esse trabalho entre as nações não aconteceu por causa de compaixão ou fé religiosa, mas por necessidade. Há uma tendência crescente em direção da conscientização global. Nas atuais circunstâncias, um relacionamento mais íntimo com os outros tornou-se um elemento da nossa própria sobrevivência. Portanto, o conceito de responsabilidade universal baseado na compaixão e num senso de irmandade é essencial. O mundo está cheio de conflitos — por causa de ideologia, de religião ou até entre famílias — baseados em alguém querendo uma coisa e outra pessoa querendo outra coisa. Assim, se examinarmos as fontes de todos esses conflitos, descobriremos muitas fontes, muitas causas, até dentro de nós mesmos.

Nesse meio tempo, todavia, temos o potencial e a capacidade de unirmo-nos harmoniosamente. Tudo mais é relativo. Embora haja várias causas de conflito, existem ao mesmo tempo muitas causas para união e harmonia. Chegou a hora de pôr mais ênfase na união. Também aqui, há que haver afeição humana. Por exemplo, você pode ter uma opinião ideológica ou religiosa diferente da de outra pessoa. Se você respeitar o direito da outra pessoa e mostrar sinceramente uma atitude compassiva para com ela, então não importa se a idéia dela lhe serve, isso é secundário. Enquanto a outra pessoa acreditar, enquanto puder se beneficiar de tal ponto de vista, ela estará em seu absoluto direito. Então, precisamos respeitar e aceitar o fato de que existem diferentes pontos de vista. No campo da economia dá-se o mesmo: nossos competidores devem obter algum lucro, pois eles também precisam sobreviver. Quando temos uma visão mais ampla baseada na compaixão, creio que tudo se torna mais fácil. Compaixão, mais uma vez, é o fator-chave.

Os conflitos mundiais estão hoje consideravelmente menos tensos. Felizmente, agora podemos pensar e falar seriamente sobre desmilitarização. Cinco anos atrás isso seria difícil, mas hoje a Guerra Fria entre os Estados Unidos e a ex-União Soviética acabou. Aos meus amigos americanos eu sempre digo: A força de vocês não vem das armas nucleares, mas dos nobres ideais de democracia e liberdade dos seus antepassados. Quando estive nos Estados Unidos em 1991, pude encontrar o ex-presidente George Bush. Na ocasião, falávamos sobre a nova ordem mundial e eu lhe disse: Uma nova ordem mundial com compaixão é ótimo. Sem compaixão, não tenho certeza.

Creio que é um bom momento para pensarmos e falarmos sobre desmilitarização. Já há sinais de redução armamentícia e, pela primeira vez, de desnuclearização. Passo a passo, vamos vendo uma diminuição de armas. Penso que nossa meta deveria ser a de livrar o mundo — nosso pequeno planeta s das armas. Isso não quer dizer, porém, que devamos abolir todo tipo de armas. Talvez seja preciso guardar algumas, pois há sempre algumas pessoas e grupos criando confusão entre nós. Por precaução, e para nos resguardarmos desses focos, poderíamos criar um sistema internacional de forças policiais monitoradas regionalmente, que não pertençam a nenhum país mas sejam controladas coletivamente e supervisionadas por uma organização internacional, como as Nações Unidas. Sem armas disponíveis, não haveria perigo de conflito militar entre as nações, nem haveria guerras civis.

A guerra continua sendo, para nossa tristeza, parte da história humana, mas acho que chegou a hora de mudar os conceitos que levam à guerra. Certas pessoas acham gloriosa a guerra, e que através dela podem se tornar heróis. Essa atitude comum em relação à guerra é muito errada. Um entrevistador me disse, um desses dias, que os ocidentais têm muito medo da morte, mas que os orientais a temem pouco. Eu lhe respondi, em tom de brincadeira, que para a mentalidade ocidental, a guerra e a instituição militar parecem extremamente importantes. Guerra significa morte — provocada, e não por causas naturais. Assim, são vocês, ocidentais, que não temem a morte, porque gostam tanto da guerra. Nós, orientais, principalmente nós, tibetanos, não podemos nem pensar em guerra; lutar, para nós, está fora de cogitação porque o resultado inevitável da guerra é o desastre: morte, ferimentos e miséria. Portanto, o conceito de guerra para nós é extremamente negativo. Isso quer dizer que, na realidade, temos mais medo da morte do que vocês, você não acha?

Infelizmente, alguns fatores fazem que nossas idéias sobre a guerra sejam muito incorretas. É hora, portanto, de pensar seriamente sobre desmilitarização. Eu senti isso profundamente, durante e depois da crise do Golfo Pérsico. Claro, todos culparam Sadam Hussein, e não há dúvida de que Sadam Hussein é negativo — ele errou de muitas maneiras. Afinal, ele é um ditador, e ditadores são obviamente negativos. No entanto, sem sua organização militar, sem suas armas, Hussein não seria aquele tipo de ditador. Quem lhe forneceu as armas? Os fornecedores também têm responsabilidade. Alguns países ocidentais lhe forneceram armas sem medir as conseqüências.

Pensar apenas em dinheiro, em lucrar vendendo armas, é realmente horrível. Certa vez, encontrei uma francesa que passara muitos anos em Beirute, no Líbano. Ela me disse, com grande tristeza, que durante a crise em Beirute havia gente de um lado da cidade ganhando dinheiro com a venda de armas, enquanto do outro lado, no mesmo dia, havia gente inocente sendo morta pelas mesmas armas. Da mesma forma, de um lado do planeta há pessoas vivendo suntuosamente com o lucro auferido da venda de armas, enquanto pessoas inocentes morrem do outro lado do planeta, vítimas daquelas balas sofisticadas. O primeiro passo, portanto, é parar a venda de armas. às vezes eu brinco com meus amigos suecos: Vocês são mesmo maravilhosos. Mantiveram a neutralidade durante o último conflito e sempre consideram a importância dos direitos humanos e da paz mundial. ótimo. Mas, nesse meio tempo, estão vendendo muitas armas. Há uma pequena contradição aí, não há?

Assim, desde a crise do Golfo Pérsico, prometi a mim mesmo que pelo resto da minha vida contribuirei para avançar a idéia da desmilitarização. No que diz respeito ao meu país, já resolvi que, futuramente, o Tibete deverá ser uma zona totalmente desmilitarizada. Mais uma vez, para tornar a desmilitarização uma realidade, o fator chave é a compaixão.

Gostaria de concluir explicando melhor o significado de compaixão, que freqüentemente é mal entendido. Compaixão verdadeira não está baseada em nossas próprias projeções e expectativas, mas sim nos direitos do outro: independentemente da outra pessoa ser um amigo íntimo ou um inimigo, contanto que ela deseje paz e felicidade e deseje superar o sofrimento, então, baseado nisso, desenvolvemos respeito verdadeiro para com seus problemas. Isso é compaixão verdadeira.

Em geral, chamamos qualquer preocupação com um amigo próximo de compaixão. Isso não é compaixão, é apego. Nem casamentos duram por apego, embora o apego geralmente esteja presente. Eles duram porque também há compaixão. Se os casamentos duram pouco, é por perda de compaixão; só há apego emocional baseado em projeção e expectativa. Quando o único vínculo entre amigos íntimos é o apego, mesmo uma questão menor pode causar uma mudança nas projeções. Assim que nossa projeção muda, o apego desaparece — porque o apego estava baseado unicamente na projeção e expectativa.

É possível ter compaixão sem apego — e similarmente, ter cólera sem ódio. Portanto, precisamos esclarecer as diferenças entre compaixão e apego, e entre cólera e ódio. Tal clareza é útil em nossa vida diária e em nossos esforços para a paz mundial. Considero esses valores espirituais como básicos para a felicidade de todos os seres humanos, tanto do crente quanto do não crente.

Fonte: http://www.dharmanet.com.br/dalai/

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A Função do Amor e da Compaixão

Gostaria de explicar qual é a importância do amor e da compaixão. É importante saber o que é compaixão, algumas vezes pensamos que é pena, mas isso não é compaixão. Compaixão é o senso de preocupação, mas mais do que isso, é a noção clara de que todos os seres têm exatamente o mesmo direito à felicidade. Essa compreensão é que nos traz a compaixão.
Também um outro aspecto que costuma ser confundido com compaixão é a sensação de proximidade, de ligação que temos com amigos e parentes. Mas isso não é compaixão verdadeira, porque esse sentimento está ligado ao apego.
Muitas vezes, nosso senso de preocupação com o outro depende da atitude que ele adota. Se a pessoa age de forma negativa, nosso senso de compaixão desaparece. Mas um senso de compaixão verdadeiro é o que nos leva a ver o outro como tendo exatamente o mesmo direito que eu à felicidade. A compaixão que se assenta no apego não se sustenta. A que se baseia na compreensão da igualdade de todos os seres é desprovida de apego, e é verdadeira.
Qual é o benefício da compaixão? Ela nos traz força interior. Geralmente, temos um senso de "eu, eu, eu". E nossa mente centra tudo em nós mesmos. Então, todas as experiências negativas, mesmo pequenas, se tornam muito dolorosas, enormes. Mas quando pensamos nos outros, nossa mente se amplia, e os nossos pequenos problemas se tornam realmente pequenos, e as coisas negativas não prejudicam nossa mente.
Alguns, quando experimentam tragédias que são involuntárias, se sentem enterrados em uma montanha de sofrimento. Mas, por outro lado, quando se pensa voluntariamente nos problemas dos outros, se procura alivia-los de seus sofrimentos, essa atitude voluntária traz uma abertura para o ser. Dessa maneira, mesmo em meio a problemas pessoais, isso traz uma base de clareza, e a pessoa será capaz de se sustentar.
COMPAIXÃO E BEM-ESTAR — Quando se pensa em compaixão por outras pessoas, alguns perguntam se isso não seria sinônimo de auto-sacrifício. Não, não é. Porque não se deve ser negligente em relação a si mesmo. E, baseado na minha própria experiência, acredito que se deve ser compassivo em benefício próprio.
Um exemplo: uma vida feliz precisa de amigos, apoio. Há amigos do dinheiro, amigos do poder, mas para esses indivíduos, se o dinheiro acaba ou o poder se vai, a amizade também acaba. Mas os amigos verdadeiros ficam.
Então, como criar amigos verdadeiros? Se você tiver um sentimento de compaixão, terá mais amigos verdadeiros. Mostre sentimentos gentis e sorria, e terá bons amigos. Porque essa atmosfera pacífica será a sua base, que irá criar as condições para a amizade.
A prática de compaixão também é imensamente benéfica para a saúde. De acordo com a medicina, os que tem mais compaixão, são mais interessados pelos outros, geralmente são mais saudáveis quando comparados com pessoas egoístas. Os egoístas sofrem mais freqüentemente de enfartes e outras doenças.
A mente mais egoísta, mais voltada para si mesma é muito ruim para a saúde. A mente mais compassiva, mais voltada para o próximo traz mais tranqüilidade, resultando por isso em saúde muito melhor.
Vejamos a sociedade atual, em que a criminalidade está crescendo, ligada à problemas econômicos e sociais, como a diferença entre ricos e pobres (inclusive entre países ricos e pobres). No nosso sistema educacional, muita atenção é dada ao desenvolvimento do intelecto, e menor atenção é dada ao coração, aos sentimentos. Pois isso é considerado tarefa da religião. E assim as crianças não recebem nenhuma orientação sobre como serem mais compassivas, e desenvolver um coração mais generoso. Mas a compaixão é tão importante para a sociedade que é incentivada por todas as religiões.
AS RELIGIÕES E A COMPAIXÃO — Por causa das diferenças filosóficas entre as grandes religiões existem diferentes técnicas para desenvolver a compaixão e algumas diferenças da definição do que seja. Mas basicamente todas elas falam da necessidade de se cultivar a compaixão.
Portanto, sinto que mesmo neste século, as maiores tradições religiosas têm um papel importante no desenvolvimento dessas qualidades. Vejo aqui pessoas de diferentes tradições religiosas, o que me faz sentir feliz, porque a tolerância religiosa é muito importante. E acredito que, independente de diferentes tradições religiosas, todos temos o potencial de ajudar a humanidade.
Vim do Oriente e sou um monge budista, assim, naturalmente, quando falo desses valores e do treinamento da mente, o faço da minha perspectiva de monge budista. Mas é claro que não quero influenciá-los. Vocês devem manter suas tradições religiosas, mudar de religião não é bom, pode gerar mais confusão do que benefício. Portanto, mantenham e sigam sua fé.
Cada uma das grandes religiões tem coisas únicas, mas também há muita coisa em comum entre elas. Assim, é sábio usar técnicas úteis de outras religiões, mesmo sem mudar de religião. Até para aplicá-las na própria religião. Com isso, as tradições religiosas diferentes desenvolvem respeito mútuo e compreensão. Isso é fundamental.
A compaixão e a bondade são indispensáveis. Sem esses valores não há felicidade. Mas muitos crêem que a prática de valores como a compaixão, o perdão e o amor são relevantes apenas para os que praticam uma religião. Isso não é verdadeiro. Podemos ver que no passado e presente existiram pessoas que mesmo sem nenhuma fé religiosa tinham esse sentimento de cometimento, de responsabilidade, de compaixão pelo próximo. Essas pessoas se tornaram mais felizes, mais úteis, mais benéficas para a sociedade.
A UNIVERSALIDADE DA COMPAIXÃO — Podemos questionar se o valor da compaixão, de um coração compassivo é universal. Eu acredito que todos os seres humanos têm o mesmo potencial. Basicamente, o ser humano é voltado para a vida e comunidade. Assim, a semente da compaixão está lá, a semente do trabalho em conjunto está lá. É da natureza humana trabalhar em conjunto. O individualista não pode sobreviver.
As abelhas também são animais sociais. Não há polícia, não há um estado, no entanto trabalham em conjunto. Uma abelha não pode ser individualista. Mas, diferentemente dos outros animais sociais, o ser humano tem a capacidade de se votar ao altruísmo ilimitado. Temos a semente da compaixão dentro de nós. Todos nós.
Quando vemos os benefícios de uma mente compassiva, e o mal de uma mente não compassiva, é fácil ver a diferença. Então, voluntariamente iremos analisar cada vez mais, mudar cada vez mais a nossa atitude. E assim, dia após dia, mudamos.
O treinamento da mente não pode ser imposto a ninguém. É preciso que nós mesmos vejamos os benefícios. Pense sobre o que o ódio traz para sua vida, para sua saúde, para as pessoas que estão à sua volta. Pense sobre a compaixão e o que traz. E assim, teremos o ímpeto de cultivar certos valores, e rejeitar outros.
Dessa maneira crescemos a cada dia, mas se não fazemos nada para reduzir nosso ódio e cultivar a compaixão tudo ficará como está, a semente nunca irá germinar.
Normalmente nossos problemas nascem de percebermos apenas o nível das aparências, e não a realidade. Ficamos no nível das aparências, e com base nelas fazemos o nosso julgamento. Também nos concentramos na felicidade de curto prazo, e não na de longo prazo.

O seminário foi realizado em Curitiba, no teatro Ópera de Arame, nos dias 5 e 6 de abril de 1999.
Tradução do tibetano para o inglês do monge LHAKDOR.
Tradução do inglês para o português de MANOEL VIDAL.

Fonte: http://www.dharmanet.com.br


Ética Planetária

      Comportamento ético

      "A disciplina ética repousa no desejo de ajudar os outros."

      "Um comportamento ético universal implica desenvolver e colocar em prática as idéias humanistas. Idéias que devem levar em conta os problemas de todos os seres, para encontrar soluções aplicáveis a todos, sejam quais forem os credos, as religiões, as culturas e as políticas em vigor nos diferentes países."

      "O estabelecimento de uma ética universal requer que um princípio básico seja aceito por todos: abstenção de qualquer ação passível de prejudicar os outros."

      "Atuar em conjunto, organizar-se, respeitar-se, aceitar as diferenças de ponto de vista para superá-los, adotar um ponto de vista humano, não mais privilegiar exclusivamente a política e a economia. Todos são aspectos que têm que ser incluídos, se quisermos desenvolver um comportamento ético universal eficaz. Só assim será possível encontrar soluções urgentes, uma vez que os conflitos, os problemas ligados ao meio ambiente, as endemias, as fomes, os desequilíbrios econômicos estão eclodindo, todo o tempo, em um ponto ou outro do planeta. São essas condições que servirão de estímulo para se coordenar rapidamente, em tão vasta escala, os meios disponíveis."

      "Resolver problemas instalados em um espaço tão grande como o de nosso planeta requer que os examinemos sob um ângulo global. Uma análise que demanda ao mesmo tempo capacidade de conciliar interesses individuais, da sociedade e do país e, ainda, adaptação às circunstâncias."

      "A cada dia devemos olhar o mundo e seus problemas como se fosse a primeira vez."

      "O entusiasmo, a vontade, a determinação são indispensáveis, se quisermos enfrentar a urgência de soluções para determinados acontecimentos mundiais."

      "A solução para os conflitos não é militar, nem política, nem tecnológica. Não é a corrida de armamentos nucleares que irá preveni-los. A violência induz outras violências. A solução é de ordem espiritual e ética."

      "O poder das armas não dura para sempre. Tão logo as condições permitem, ele é destronado pela democracia, pela liberdade e pelo desejo de justiça. O espírito humano sai sempre vencedor nesse tipo de combate."

      "A perfeição da ética é construída pela dádiva. Uma dádiva desinteressada, que não espera retorno. Uma dádiva equânime e igual em relação a todos os seres."

      "Planejar uma ética de comportamento universal é o único meio de contribuir para tornar o homem mais feliz no conjunto do planeta."

      "Observar a Terra do espaço mostra que as fronteiras criadas pelo homem não têm realidade. Observar desse modo o planeta azul nos revela o sentimento de unidade. Tudo parece coerente, justo, no lugar certo. O espaço-tempo dos humanos cria vida nas diferenças, na competição, no poder, nos conflitos, nas raivas. E, no entanto, a Terra é um conjunto, somos parte deste conjunto, dependentes uns dos outros. Só poderemos pensar no futuro da humanidade e assegurar sua sobrevivência, se aceitarmos que o princípio da interdependência, que rege todas as bases do ensinamento budista, é um princípio essencial à vida, um princípio incontornável. A interdependência se torna cada vez mais evidente. A economia, a política, os desequilíbrios do meio ambiente dão prova disso, todos os dias. A lucidez e a reflexão deveriam trazer-nos mais sabedoria, bem como fazer com que este princípio deixasse de ser virtual e se tornasse uma realidade universal."

      "Um comportamento ético universal não poderá jamais estar calcado em princípios religiosos, mas, sim, humanos."

      "A geração atual está muito comprometida com os mecanismos do mundo moderno, excessivamente dependente deles.
Será difícil para ela transformar hábitos adquiridos, tanto do ponto de vista da mente quanto da matéria. Para construir um mundo melhor, será necessário educar as crianças.
      A estratégia a ser desenvolvida é dupla:
      - Imediata: Agir sobre os desequilíbrios do meio ambiente e, em especial, sobre tudo que diz respeito aos direitos humanos.
      - A longo prazo: Desenvolver os conhecimentos espirituais e adaptá-los à sociedade contemporânea."

      "O objetivo das religiões e dos sistemas políticos é ajudar o ser humano a ser feliz. Os meios utilizados para alcançar esse objetivo não parecem sempre coerentes. É, portanto, inútil submeter-se rigidamente a qualquer um deles. Não devemos perder de vista que o homem é mais importante do que qualquer sistema ideológico, seja ele qual for."

      "A destruição do planeta pelas armas nucleares é o maior perigo que ameaça a humanidade. Estamos cientes da realidade dessa ameaça. Somos responsáveis por ela. É hora de acharmos os meios de eliminá-la."


      Bioética

      "O aborto é um ato de grande violência; o feto é um ser humano completo. Destruí-lo equivale a matar um ser humano, essa é a regra geral. Contudo, cada circunstância é particular, devendo ser encarada em função de seus elementos específicos. Se existir risco de vida para a mãe e para a criança, ou se o nascimento se revelar catastrófico para a família, é possível considerar a interrupção da nova vida. Esta escolha só pode ser encarada como solução derradeira e ser adotada depois que todas as outras possibilidades tiverem sido avaliadas."

      "Em alguns casos, excepcionais, a eutanásia pode ser um recurso. Se o enfermo se encontra em coma irreversível, se está sendo mantido vivo artificialmente, e a família está em grandes dificuldades materiais para prolongar esse estado, deve-se considerar a eutanásia. Mas é necessário refletir sobre todas as conseqüências que esse ato trará para os próximos, para o moribundo e para o corpo médico."

      "Quer se trate do aborto ou da eutanásia, eles são sempre escolhas que resultam na retirada da vida de uma pessoa. Devem ser consideradas caso a caso. Diante de tais circunstâncias, deve-se, em primeiro lugar, examinar honestamente a motivação. A decisão depende da motivação. A motivação é determinante."

      "Controlar os nascimentos não é uma ação paliativa. Cada pessoa deve decidir que meios utilizar, de modo a não ter que matar um óvulo já fecundado."

      "De uma maneira geral, os cientistas não prevêem o impacto de certas descobertas. A pesquisa atômica é a prova disso. Assim como o trabalho efetuado com genes. O mesmo acontece em matéria de economia. A corrida pelo rendimento imediato pode criar catástrofes em nível planetário."

      Meio ambiente

      "Os budistas sempre respeitaram a natureza. A proteção do meio ambiente está no cerne de suas preocupações. Para um budista, cada inseto, cada planta ocupa um lugar essencial e indispensável. O menor deles, até mesmo o organismo celular mais microscópico, tem um papel específico a desempenhar na manutenção do ecossistema. Além disso, o ensinamento budista reconhece todo ser vivo como um ser sensível. Todo ser vivo é capaz de realizar um dia sua natureza de Buda, ao longo dos renascimentos que farão parte de seu futuro."

      "Todos os credos religiosos e espirituais deveriam se engajar e engajar seus membros na proteção do meio ambiente. Participar faz parte da responsabilidade de todos eles. A ética religiosa não pode negligenciar esse aspecto da vida."

      "Preocupar-se com a ecologia e com os direitos dos animais consiste em fazer o bem. São comportamentos que desenvolvem o altruísmo, a generosidade, a abertura do coração e as ações não-violentas."

      "Nossa geração deveria se sentir mais responsável e se inquietar mais a respeito dos desequilíbrios do meio ambiente, dos problemas decorrentes da poluição e daqueles criados pela superpopulação. Devia, da mesma forma, esforçar-se para reverter o esgotamento dos recursos naturais. É preciso refletir sobre esses fatos, pois existe o risco de ser tarde demais para as futuras gerações encontrarem soluções para as catástrofes - que já se anunciam - criadas por nós."

      Mídias

      "E essencial estar informado. Contudo, privilegiar os programas que supervalorizam sexo e violência é prejudicial à educação e à vida em sociedade. Os comportamentos dos adultos, dos adolescentes, das crianças são influenciados por esses tipos de programas. Sexo e violência servem de referências para orientar suas vidas. O perigo decorre do vazio espiritual e humano, próprio dos seres. Desprovidos de conhecimento, crêem que a existência só pode ser examinada por intermédio desse tipo de informação. O papel dos adultos e dos educadores e, por essa razão, primordial. É difícil proibir alguém de ver televisão, ou de assistir aos filmes. É possível, em todo caso, decifrar para aqueles que nos estão próximos as imagens mostradas, ajudá-los a perceber que elas mostram apenas uma parcela da realidade social e humana. Elas exprimem somente os sofrimentos de homens cuja vida é desprovida de sentido. É, então, urgente desenvolver a compaixão."

      "O poder das mídias é considerável. Deveria ser utilizado para fazer o bem e ajudar os seres a se tornarem mais compassivos, mais solidários."

      "O tempo que se passa diante da televisão não pára de crescer; seu poder é real, seu impacto é importante. Somos dependentes dela. A televisão nos influencia diariamente em tudo que somos, pensamos e fazemos."

      "Os dirigentes das emissoras de televisão detêm pesada responsabilidade. Participam da definição do homem moderno. Têm influência na educação das crianças. O comportamento dos adolescentes reflete, freqüentemente, o conteúdo violento, característico de alguns programas. Muitos jovens encontram neles exemplos de vida que os levam a matar ou a violentar. A responsabilidade dos donos de canais de televisão é idêntica à responsabilidade dos políticos e dos religiosos."

      "O poder das mídias é ainda mais insidioso, por ser encoberto e dirigir-se também ao inconsciente."

      "A maior parte dos seres humanos vive de maneira virtual, identificando-se com imagens, artistas e cenas que assistem na televisão. Permitem que suas vidas sejam roubadas."

      "Se nosso cotidiano é vivido essencialmente através da telinha, nossas vidas estão dominadas pelas imagens e não pela realidade do que de fato experimentamos."

      "O excesso de imagens desacredita o ‘ser’, e o ‘parecer’ acaba por ocultar as expressões possíveis do ser."

      "Os noticiários só falam de violência. A violência faz vender. Contudo, a natureza humana não é somente feita de ódio, de agressividade. A natureza humana também é boa e compassiva, capaz de dádiva e amor. Seria mais justo se as mídias mostrassem uma visão mais equilibrada e harmoniosa do mundo e da sociedade."

      Economia

      "A pobreza, a miséria, a precariedade e o desemprego provocam sofrimentos inimagináveis em algumas pessoas. A riqueza, a acumulação de bens, a angústia de perdê-los provocam também grandes sofrimentos em outras. Um sistema econômico justo deveria ser mais equânime. Os tormentos pessoais diminuiriam. Partilhar é uma alegria real. Uma alegria que transforma as vidas."

      "As coisas mudam, de maneira sutil, mas se transformam. Os homens de negócios, os cientistas e os políticos estão se interessando mais e mais pela espiritualidade. O mundo material já começou a mostrar seus limites, e seus dirigentes estão se dando conta disso. E por isso que alguns deles já começaram a procurar soluções em domínios que lhes pareciam, até bem recentemente, fora da realidade e desprovidos de sentido concreto."

      "Os economistas desenvolverão o altruísmo e a compaixão em suas áreas de atuação, no momento em que tomarem consciência das conseqüências negativas do que fazem."

      "Humanizar o mundo das finanças e a gestão econômica supõe abrir-se e aceitar enxergar as conseqüências das ações engendradas por essas áreas, notadamente nos países mais pobres. Essa tomada de consciência se torna mais necessária ainda, quando estamos constatando que mesmo as regiões mais ricas do mundo têm de enfrentar desequilíbrios sociais internos cada vez maiores. Alguns já falam de um quarto mundo. Humanizar as finanças e a economia é uma urgência imediata que diz respeito ao futuro de toda a humanidade."

      "É evidente que o dinheiro é necessário, mas considerá-lo como uma força absoluta, capaz de resolver todos os problemas materiais e existenciais, é um grave erro."

      "É mais importante possuir um espírito sadio, positivo, altruísta e generoso do que acumular bens e dinheiro."

      "O desequilíbrio econômico Norte/Sul é aterrador. Numerosos problemas nascerão dessa injustiça, desse fosso econômico. Seria mais sensato ajudar localmente uns e outros, a fim de evitar os sofrimentos provocados pela imigração, pela escalada dos integrismos. Nenhum ser humano fica feliz de se desenraizar.

      "Ter dinheiro e utilizá-lo para ajudar os que nos cercam resulta de uma motivação positiva. Em compensação, tornar-se obcecado pela necessidade de ter sempre mais para o próprio benefício, enriquecer-se em detrimento dos outros, vender armas, explorar os animais, empregar crianças e seres humanos como se fossem escravos, empregar todos esses meios nefastos é muito negativo e conduzirá, necessariamente, um dia, a infinitos sofrimentos."

      "A riqueza pode ser, ela mesma, uma escravidão."

      Política

      "Os políticos, os homens da mídia, os escritores, têm a obrigação de explicar às gerações presentes as conseqüências catastróficas de atos humanos, no presente e no futuro."

      "Somos todos responsáveis pelo que ocorre na sociedade. Os políticos são nossos representantes, nós os escolhemos. É nosso dever intervir com os meios que nos são oferecidos."

      "Todos os sistemas totalitários morrem um dia ou outro. A democracia é sempre mais forte em um determinado momento da história de um país."

      "Investir dinheiro em armamentos só faz manter os sistemas. Temos que conseguir um desarmamento massivo e geral. Os governos não estão prontos para dar esse passo. Todavia, toda resistência passiva que recuse o uso de armas contribui para o progresso da paz e para a evolução das consciências."

      "A paz mundial só pode repousar na confiança total e mútua. Nunca na idéia de que os estoques de armamentos estão disponíveis, podendo ser utilizados a qualquer momento. A paz só poderá ser estabelecida progressivamente. Esse desejo não é utópico. É simplesmente indispensável, para a sobrevivência da humanidade, tudo fazer para realizá-lo. Esse avanço gradual supõe acharmos primeiramente os meios de desenvolver a própria paz interior. Pois, só então, dado que paz interior e paz exterior são indissociáveis, se tornará mais evidente a vontade de realizar esse desafio."

      "Somos todos responsáveis pelo estabelecimento da paz em nível internacional."

      "A democracia é justa, porque preconiza a separação dos poderes legislativo e judiciário, notadamente. Estes devem permanecer independentes para que o sistema funcione."

      "Todo político tem necessidade de espiritualidade, pois, se for desprovido dessa base, e só agir segundo seu próprio interesse, poderá prejudicar um grande número de pessoas."

      "E indispensável constituir um grupo de pessoas, um conselho mundial de ‘sábios’, humanista e desprovido de preconceitos, para dar prioridade ao bem-estar da humanidade. Atualmente os representantes dos governos lutam por seus países, sem levar em conta as necessidades das outras nações. É, então, necessário envolver um grupo de pessoas responsáveis e altruístas que se encarregariam da proteção de todos os povos."

      "A não-violência é um modo de ação cada vez mais reconhecido através do mundo. É hoje sinônimo de força. Antigamente simbolizava fraqueza."

      "Os sistemas políticos, financeiros, religiosos, educativos, estão escapando cada vez mais de nosso controle."

      "Um dos maiores perigos do mundo atual é a superpopulação. Esse perigo deixa os políticos indiferentes. No entanto, ele ameaça a sobrevivência da humanidade."

      "O princípio budista de interdependência implica considerar indispensável levar em conta tanto os direitos humanos, quanto os direitos das crianças e os direitos dos animais, se quisermos que as coisas mudem. A política não pode deixar de levar em consideração nenhum desses domínios."

Fonte: Sabias Palavras do Dalai-Lama

 

 

 

 
 
 
 
 
 
 
 
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